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Árvores, uma paixão ancestral PDF Imprimir E-mail
Escrito por Raul Cânovas   
Seg, 04 de Outubro de 2010 20:31

Por Raul Cânovas

floresta

 

Há momentos em que gosto mais de árvores do que de pessoas; elas são inconscientes e inconseqüentes, até diria que, um pouco freudianamente, vivem a partir da semente um mundo de sonhos, ignorando o tempo e o espaço, fincando suas raízes pelo puro prazer de bolinar o barro e parindo folhas que, mais tarde, poderão sangrar uma seiva poluída e desnutrida.

Não importa, isso não importa, o que realmente interessa é o momento, esse instante jamais revivido que não levaram em conta princípios nem idéias. Silenciosas, vivem despreocupadamente; alheias de suas próprias atividades vitais; não sentem remorsos pelo fruto, ainda verde, malogrado, nem tormentos internos por um ramo mal formado; tampouco temem a tormenta porque, simplesmente, o futuro desconhecem. E assim, sem aquela consciência moral pela qual você e eu somos talhados, elas vivem e vivem bem e, apesar de muitas vezes parecerem tristes e desfolhadas, jamais conheci uma árvore arrependida ou condenada a vivenciar qualquer culpa. Possivelmente poderíamos julgá-las de atéias, já que não conhecem o medo do castigo divino, ou talvez, elas próprias sejam o divino, essência cósmica que simboliza o crescimento ativado, por uma força dinâmica de regeneração continua. Mais ou menos essa era a convicção religiosa dos habitantes da idílica Arcádia, região central do Peloponeso, Grécia antiga. Lá, as Hamadríades tinham a obrigação sacratíssima de viverem simbióticamente com as árvores, essa associação recíproca, que unia cada uma dessas ninfas com cada habitante do bosque, começava simultaneamente no nascimento e só terminava com a morte de ambas. Levavam uma existência alegre, desfrutando do sol e da água das chuvas e defendiam suas protegidas de predadores e lenhadores. Homero contava que, de tempos em tempos, fugiam dos lenhos onde estavam enclausuradas para dançar com os sátiros, jovens travessos e doces, que simbolizavam a natureza e moravam nos bosques. Pois é, sinto pelas árvores um apego diferente, uma querência atávica que remonta, quem sabe, a aquela época em que eu próprio era um dendrobata, que contemplava o mundo desde a copa da árvore em que vivia. Um mundo primitivíssimo e hostil, com certeza, onde junto com aqueles amigos australopitecus pelejávamos para sobreviver no meio de densa floresta. Hoje, você e eu, típicos representantes da raça humana moderna, continuamos batalhando para prosseguir nossas vidas. O cenário mudou, aquela mata espessa, cheia de perigos e mistérios ficou para trás; conquistamos o conhecimento e não estamos mais perdidos naquela floresta, que era como uma metáfora ligada à ignorância. No entanto, meu amigo, minha amiga, morro de saudades daquele ar puro, do cheiro de mato, das ninfas que protegiam as árvores e que também cuidavam da gente. Por tudo isso, por favor, não me leve a mal, ás vezes prefiro a companhia de uma árvore. Há momentos em que gosto mais delas do que de pessoas.

Última atualização em Qui, 17 de Fevereiro de 2011 19:54
 

Comentários  

 
# neusa baiocchi 31-05-2011 16:32
Raul, já há algum tempo tinha ouvido falar de vc.sou arquiteta paisagista em Goiás. Qd. minhas clientes trazem a revista Natureza tb. acompanho seus textos. Mas não poderia deixar de lhe contatar após ler esta colocação freudiana sobre as árvores, que amei!!! vc. é um belíssimo contador de histórias ,além de ser um férreo defensor de nossas paisagens naturais.Parabéns pelo seu trabalho e mente aguçada.
Quem sabe podemos nos encontrar uma hora p/ trocarmos algumas idéias o q. naõ falta p/ vc. p/ eu aplicá-las aqui em Goiás.

Um abraço

Neusa Baiocchi
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# Cássia R. Marques 08-10-2011 17:16
Querido e Grande Mestre,é assim que o senhor merece ser chamado, maravilhoso o seu artigo...
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