AS ORQUÍDEAS DO MEU JARDIM
Os Dendrobiuns já floresceram.
Os olhos de boneca, como são chamados popularmente, gostam mesmo é do frio. Nessa época, eles cobrem os xaxins e o tronco das árvores de rosa, branco e sulferino. Essas cores aparecem de forma espetacular com o ar fino do inverno e dão vida ao renegado espaço da piscina, que nessa época é muito mais visto do que utilizado.
O calor da primavera explode os Oncídiuns que começam a pincelar a paisagem aqui e ali de ouro. São pinceladas delicadas, um pouquinho de pontilhismo amarelo, no absoluto multitons de verde do cenário.

Quem acompanha os Oncídiuns, são os Epidendruns. Orquídeas de terra, originadas nos campos de altitude, exibindo pompons vermelhos, alaranjados e amarelados, que quando vistos de perto, são cachos de lindas e delicadíssimas flores. Verdadeiras jóias paginadas com um desenho deslumbrante com “brilhos de pedras preciosas”, tão frágeis, que parece contra-censo nascerem literalmente nas pedras em locais assolados por impiedosos ventos.

Desvio o olhar e me chama a atenção um buquê de Cattleyas brancas, de miolo amarelo, que de tão grandes constituem uma pintura à parte.

Assistindo a tudo, as danadas e resistentes Arundinas, arundineiam a paisagem durante o ano todo com suas flores equilibrantes, nos seus desengonçados e bamboleantes bambuzinhos. Mas seus variados matizes rosados nos dão aula de composição de cor. Fernando Chacel foi quem me apresentou essa planta. Fiquei maravilhado quando discorreu sobre o conceito da Ecogênese e como o utilizou nesse projeto.

O que me encanta nas orquídeas que descrevi é a rusticidade, o poder de adaptação e proliferação. Isso me faz lembrar uma história contada pelo “Seu” Walter, ou terá sido o Blossfeldt, sobre as orquídeas exportadas em navios para a Alemanha, no início do século passado.
Eram plantas valiosíssimas, que chegavam em balaios ao destino totalmente floridas. Eram florações tão espetaculares que, após uma viagem tão longa de maus tratos, chegava-se a tecer teorias que essas orquídeas não gostavam de cuidados especiais que lhes eram dedicados. Depois, nas estufas de temperaturas, adubação e regas controladas, visto que nunca mais elas floresciam tão magnificamente. Estudos vieram comprovar que, na verdade, essas plantas maltratadas, sentindo a morte aproximar-se, se exauriam em florescimento gerando enormes quantidade de sementes para a perpetuação da espécie.
Esse interessante fenômeno hoje, infelizmente, é usado na indústria da floricultura. Por isso, muitas vezes compramos vasinhos lindamente floridos de violetas, azaléias, crisântemo e poinsétias, que sofrem choques térmicos violentos, adubação ou falta de adubação, para que praticamente num processo de aborto, elas floresçam todas as flores possíveis. É triste, mas como profissionais precisamos entender esses processos.

Arquiteto Paisagista

